O centenário da poetisa paracatuense Branca Adjucto Botelho

Branca Adjucto Botelho: A escritora morreu aos 24 anos de idade, vítima de leucemia. Foto: Cedida por Maria do Socorro V. Coelho

Por: Maria do Socorro Vieira Coelho (*)

Em agosto de 2011, ano em que se comemora o centenário da escritora Branca Adjucto Botelho, não poderíamos deixar de conhecer um pouco sobre a vida e a literatura de uma das escritoras mineiras das primeiras décadas do século XX. Ela é natural do interior mineiro, de um antigo arraial que se tornaria a Vila de Paracatu do Príncipe e mais tarde, a cidade de Paracatu, em uma região completamente afastada dos centros culturais brasileiros. O município foi fundado no segundo quartel do século 18 e se constituiu um dos pontos de articulação de baianos, de paulistas e do povo dos sertões de Goiás.

Essa paracatuense viveu num cenário histórico repleto de ricas heranças entre as décadas de 1830 e 1870, período em que, segundo a história, aconteceram pequenos movimentos de articulação entre as mulheres, de cunho literário, para permitir que suas forças se somassem e, mais uma vez, elas fossem capazes de romper as barreiras da intolerância, e abrir novos espaços;[1] foi o início da luta das mulheres rumo às primeiras práticas literárias de autoria feminina. Além de sua participação nesses movimentos, Branca viveu em uma época de grandes transformações sociais, políticas e literárias que culminariam na Semana de Arte Moderna – 1922, em São Paulo.

A poetisa Branca Adjucto faz parte de uma família de escritores, já que sua mãe, Maria Conceição Adjucto Botelho e seus dois irmãos, Pero Botelho e Beatriz Botelho também possuiam veia literária. Essa característica em produzir obras literárias não seria um traço somente de pessoas da sua família, mas também de vários paracatuenses, como Afonso Arinos e Benedita Gouveia Damasceno etc., escritores bem conhecidos, e outros ainda desconhecidos do mundo literário como, Coraci Neiva Batista, Adriles Ulhoa Filho, Zenóbia Vilela Loureiro etc.

A presença de Branca entre nós foi breve; viveu apenas 24 anos. Nasceu em 23 de agosto de 1911 e, acometida de leucemia, faleceu no Rio de Janeiro, em 24 de agosto de 1934. Ainda conhecemos pouco sobre a vida de Branca Adjucto, sobre sua carreira, do que gostava de ler, seus estudos etc. Sabe-se apenas que ela passou sua infância no meio rural paracatuense junto aos seus familiares, onde cursou o primário e que, no Colégio Santa Maria em Belo Horizonte, iniciou o secundário e o concluindo no Colégio Sion, em São Paulo.

No curto período de sua existência entre nós, Branca Adjucto, em sua simplicidade, escreveu preciosas poesias em momentos de profunda inspiração, e sem se dar conta do valor e da importância do que havia escrito. Após seu desencarne, sua mãe – Maria Conceição Botelho – reuniu sua obra, organizou-a e a publicou em 1937, em um livro intitulado ‘Simplicidade’,  prefaciado e editado pela própria Conceição que considerava sua filha uma “mulher ‘de fina percepção e sempre à procura de formas e cores para os seus olhos, de melodias para os seus o

Livro de poesias de Branca Adjucto Botelho, publicado por sua mãe Maria Conceição Botelho em 1937. Foto: Imagem cedida por Maria do Socorro. V. Coelho

uvidos, enfim, de ritmos para a sua sensibilidade” (Conceição Botelho, p. 90, 1935). Em 2003, uma nova versão desse livro foi

organizada pela presidente da Academia de Letras do Noroeste de Minas Gerais, Coraci da Silva Neiva Batista.

Branca deixa traços da sua personalidade em sua obra literária. É possível perceber sua sensibilidade e inquietude para com o “pequeno mundo” da sua terra natal em relação a outros lugares. Segundo Mello (1966. P. 75-77), ela

foi uma poetisa sensível e irônica em relação ao mundo em que vivia, “uma poetisa de alta sensibilidade e um tanto irônica. Possuidora desta ironia fina e viva nascida para com as cousas da própria vida. A sua alma era muito dilatada para viver estreitamente mensurada num pequeno mundo de idéias e de ideais”. Essa descrição de Mello pode ser percebida claramente em suas poesias intituladas ‘Dualismo’ (p. 21), ‘Cidade pequena’ (p. 23), ‘Ânsia’ (p. 30). A título de ilustração para a descrição de Mello, transcrevemos um desses poemas.


Cidade pequena

 

Cidade pequena…

Ruas pequenas…

Idéias pequenas…

A monotonia

Como o pão de cada dia

Envenenado pelo diabo,

Matando

O entusiasmo

A inspiração…

O mundo tão longe!

A civilização tão além!

Ideais que se quebram

Na falta de compreensão…

Almas feitas para os grandes vôos

E de asas amarradas.

Idéias pequenas,

Vida apequenada.

Preconceito. Malícia.

Horizonte pequeno.

Tudo terrivelmente pequeno.

Curto. Abafado.

Que vontade de respirar o ar do alto,

O vento dos horizontes abertos.

Voa minha alma! Voa!

Voa alto! Por cima de tudo!

Queria que você se destendesse como um elástico.

E crescesse,

Crescesse até abarcar o mundo.

O poeta dorense Emílio Guimarães Moura, citado por Mello, (1966, p. 75), lamenta a morte precoce da jovem escritora Branca Adjucto, cuja poesia era autêntica e já mostrava um espírito amadurecido com pinceladas de ironia.

A Professora e estudiosa Maria do Socorro Vieira Coelho pesquisa os códices com os estatutos da irmandades de Paracatu. Foto: Carlos Lima / APMOMG

Em suas poesias, a escritora conspira constantemente com o universo. A inquietação íntima é um dos seus traços marcantes. Com rara sensibilidade, conhecimento e sabedoria, capta significados da convivência entre as personagens da natureza, os sons da chuva e do vento, as árvores, flores, estrelas, a lua, o sol, céu, ar, a terra etc. Branca tece comparações entre os acontecimentos vividos e observados por ela, e entre o comportamento das pessoas e o da natureza. Viaja pelas paisagens naturais, dança, encanta-se, desencanta-se aos sons do vento, dialoga suas súplicas e suas angustias junto aos redemoinhos paracatuenses; voa entre estrelas e repousa seu cansaço nas nuvens. Em seus poemas, percebe-se a recorrência das palavras ‘vento’ e ‘voar’, relacionadas ao seu desejo de liberdade, de alçar vôo do mundo tão pequeno em que vivia. Em um poema, diria: “Que vontade de respirar o ar do alto/o vento dos horizontes abertos/Voa minha alma! Voa!/Voa alto! Por cima de tudo!”

Com simplicidade, maturidade e naturalidade, Branca dialoga sempre com a dualidade ‘morte’ x ‘vida’ em seus poemas. Para ela a felicidade é interior e de responsabilidade apenas de cada ser humano, portanto, cabe a cada indivíduo viver intensamente e alegremente o que escolheu para si, de maneira resignada; acredita também na continuidade da vida, na eternidade da alma considerando esta, por sua vez, uma parte do todo universal. A matéria, na sua visão, não é perecível, o corpo fisiológico, após o desencarne, destina-se ao processo natural de transformação, seguindo o conhecido princípio do cientista químico parisiense Antoine Laurent Lavoisier (1774) de que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. A seguir, o poema ‘Eternidade’ ilustra o que aqui comentamos.

 Eternidade

 

Vivo minha vida

Intensamente. Alegremente.

Com a felicidade presa

No meu mundo interior –

Uma felicidade sem exigência,

Resignada,

Que eu mesma fiz para mim.

Sei que a morte há de vir.

Bem-vinda seja!

Recebê-la-ei como amiga,

Sei que ela apenas desdobrará o meu ser

Os átomos de meu corpo

Se espalharão pela natureza

Irão formar outros seres…

Infiltrarão na terra,

Cantarão nas cachoeiras,

Serão rochedo e palmeira…

E eu viverei eternamente

Mudando de forma cada dia

Na grande vida universal.


 A poesia de Branca Adjucto nos permite perceber sua profunda sensibilidade e inquietação em relação aos fatos cotidianos tão simples e ao mesmo tempo tão significativos; faz-nos sentir integrados com a beleza, a simplicidade e a sabedoria nata dos seres universais que somos. Sua poesia nos intriga e nos convida a reflexões.

Referências

 

 

BOTELHO, Branca Adjucto. Simplicidade. Minas Gerais: DPI Editora, 2003. 64p.

MELLO, Oliveira. Paracatu e Patos de Minas: uma antologia. Belo Horizonte: Instituto de História, Letras e Arte, 1966.

http://www.cultura.mg.gov.br/suplementoliterario. Acesso em 01 de fevereiro de 2011.

COELHO, Maria do Socorro Vieira. Branca Adjucto Botelho. In DUARTE, Constância Lima (Org.). (No prelo).


[1] Duarte (Ano?, pág. 3) – ‘Feminismo e Literatura: discurso e história.’

(*) Maria do Socorro Vieira Coelho é Professora de Linguística e Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Montes Claros(Campus Paracatu). Mestre em Linguística pela Universidade Federal de Minas Gerais e Doutora em Língua Portuguesa e Linguística pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Suas principais e atuais linhas de pesquisa têm sido: Linguística e Língua Portuguesa (sociolinguística, línguas em contato, etnolinguística, ensino de língua materna), Literatura de autoria feminina mineira e literatura oral das comunidades quilombolas do norte de Minas Gerais. Desenvolve o Projeto A Língua Portuguesa nas Comunidades Quilombolas do Norte de Minas Gerais, integra o Grupo de Pesquisa ‘Letras de Minas’ – Jornal ‘Mulheres em Letras‘ e atualmente está pesquisando no Arquivo Público Municipal sobre a influência dos Judeus em Paracatu e a influência de línguas africanas no português falado em Paracatu.
 


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2 Respostas

  1. marcos mauricio mendes lima | Responder

    Foi publicado em 2014, o catálogo da preciosa Coleção Mineiriana do “Instituto Cultural Amilcar Martins”, organizada pelo generoso Historiador Amilcar Viana Martins Filho. Fiz questão de adquirir um exemplar (capa dura) com dedicatória do autor, cuja saudosa mãe Dona Beatriz Borges Martins, foi a mulher que mais amou Belo Horizonte, e, fora amiga de minha Tia avó Celina Ribeiro de Oliveira – saudosa professora de Entre Rios de Minas. Fazendo uma consulta neste maravilhoso catálogo, notei nas páginas de raridade, mencionado o livro: “Simplicidade”(1937), de Branca Adjucto Botelho – cujo livro foi prefácio e publicação da Sra.Maria Conceição Botelho, mãe de Branca. Portanto, este livro encontra-se imortalizado na maior biblioteca mineiriana do Brasil: “Fundação Amilcar Martins”. Eu como um cultuador das Historia de Famílias Mineiras em Minas, não poderia deixar de possuir um exemplar, que adquiri do Ricardo Xavier (da Livraria Benedictos-BH) e, que guardo com estima, como se fosse parte deste Anjo paracatuense, que um dia viveu na terra. Parabéns pelo Blog!….

  2. marcos mauricio mendes lima | Responder

    FAZENDO MINHAS PESQUISAS DE GENEALOGIA, DESCOBRI QUE BRANCA ADJUCTO BOTELHO É DESCENDENTE DE JOAQUINA DE POMPÉU, POIS SEU ANTEPASSADO FRANCISCO GARCIA ADJUCTO CASOU-SE COM GERTRUDES DE OLIVEIRA CAMPOS, ESTA, LEGÍTIMA DA FAMÍLIA DE JOAQUINA BERNARDA SILVA DE ABREU CASTELO BRANCO (DONA JOAQUINA DE POMPÉU), QUE FORA CASADA EM PITANGUI, MG, COM O FAMIGERADO CAPITÃO- MOR: INÁCIO DE OLIVEIRA CAMPOS. LIVRO DE REFERÊNCIA: “DONA JOAQUINA DE POMPÉU”(1956), DE CORIOLANO PINTO RIBEIRO & JACINTO GUIMARÃES – PÁGINA: 648.

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