Cerol: Um inimigo quase invisível

Por: Carlos Lima (*)

[…] a brincadeira realizava-se apenas com bons ventos e acrobacias incríveis, mas noutros tempos, o passatempo tomara um ar competitivo e ganhara proporções tais que passara a ser um risco […]

Perigo à solta: Linha com cerol corta pescoço de menina. Foto: Sedestehoje/Fev. 2011

“De repente senti um corte na orelha e tive a certeza de que tinha me ferido com a linha que preparava para fazer voar o brinquedo dos meus sonhos”. Esta é uma das amargas lembranças de quando era menino e soltava pipa pelas ruas e terrenos baldios lá de minha terra natal, Guanambi, no Sudoeste da Bahia.

Não seria uma atitude sensata ocultar que eu e meus amigos participávamos, da brincadeira perigosa em que moíamos o vidro, muitas vezes resultante do descarte de lâmpadas fluorescentes, e aplicávamos-lhe com cola na linha utilizada para empinarmos pipas e no meio da diversão, cortávamos as linhas de outras que conosco disputavam o céu.

Essa era e é a moda, pois antes a brincadeira realizava-se apenas com bons ventos e acrobacias incríveis, mas noutros tempos o passatempo tomara um ar competitivo e ganhara proporções tais que passara a ser um risco para a segurança das pessoas, especialmente para motociclistas e ciclistas, para quem uma linha com cerol pode custar a própria vida.

Lá pelos idos de 1987, o temível cerol, uma mistura cortante feita de vidro triturado e cola, espalhara-se pelas capitais brasileiras, para posteriormente, alcançar também as cidades do interior. Era o fim de uma época em que soltar pipa era uma diversão sadia e que não trazia prejuízos para os que dela não participavam.

Na semana passada, o Brasil assistiu ao trágico desfecho da brincadeira que tem a linha cortante como dispositivo de ataque dos pipeiros: Um policial militar, de 25 anos, que trafegava de moto pelas ruas de São Paulo, sem a antena protetora, tivera o pescoço cortado por uma linha com cerol e morrera a caminho do hospital.

O perigo está no ar: Quase imperceptível, substância agregada à linha pode custar a vida. Imagem: fitaprotetora.com.br

A pipa ou “raia” ou papagaio, como é chamado o brinquedo acessível à grande maioria da população (e não são só as crianças, que dele gostam), principalmente pelo baixo custo de sua feitura, agora é visto como um perigo, haja vista que sua estrutura traz consigo um inimigo quase invisível, o cerol.

Só para lembrar, o uso do cerol para empinar pipa costuma ser tratado pela polícia como crime, pois o seu usuário incorre na infração de perigo para a vida ou a saúde de outrem, conforme prevê o artigo 132 do Código Penal.

(*) Carlos Lima é graduado em Arquivologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), é Pós-Graduado em Oracle, Java e Gerência de Projetos, é consultor em organização de arquivos e memória empresarial e exerce o cargo de Coordenador do Arquivo Público Municipal de Paracatu.

Atenção! Caso queira publicar esta matéria, cite o autor.

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