Outro olhar sobre nossas janelas

Por: Terezinha de J. Santana Guimarães (*)

A mulata na janela do Casarão na esquina da Rua Rio Grande do Sul com a Rua Goiás em Paracatu é ponto de visitação dos turistas. Foto/Reprodução: Google Ago. 2011

A mulata na janela do Casarão na esquina da Rua Rio Grande do Sul com a Rua Goiás em Paracatu é ponto de visitação dos turistas. Foto/Reprodução: Google Ago. 2011

Paracatu-MG (04/02/2014) – Ao passear pelas ruas e becos tortuosos de nossa cidade, que serpenteiam pelos caminhos do ouro, nos deparamos com lindas fachadas e nelas inseridas, suas peculiares janelas, que surgiram como derivação das portas.

As janelas de guilhotina, como as da Casa de Cultura, foram uma moda que os portugueses tomaram como empréstimo dos ingleses e holandeses e, consequentemente, os brasileiros desses.

No século XIX, período romântico, surgiram os vãos com a caixilharia de forma curvilínea, em especial nas suas bandeiras. Vislumbramos muitas delas na Rua do Ávila, Pinheiro Chagas, Temístocles Rocha, Sérgio Ulhoa. Nas casas, as janelas, semelhantes às molduras de retratos, são ricas em detalhes, como formas de expressão estética e de status social.

Passando pela Rua Rio Grande do Sul, cruzando com a Rua Goiás, vislumbramos uma escultura: uma namoradeira na janela.

Muitas pessoas a observam e nem imaginam que ela guarda o registro de um tempo em que as mulheres estavam sujeitas quase exclusivamente desse ambiente para ter contato com a rua. Esse espaço da residência já foi importante para a socialização feminina e que muito contribuiu para sua libertação.

As varandas se tornaram o único ambiente que as mulheres tinham com o mundo exterior, já que as saídas femininas se limitavam a idas até a igreja, na maioria das vezes. As mulheres brancas, pois as afro-descendentes tinham sido “coisificadas”. As sinhás se inteiravam dos acontecimentos através das frestas das varandas, muitas delas cobertas de muxarabiê (tipo de treliça de madeira colocada nas janelas), que também serviam para ocultá-las no seu mundo doméstico, longe dos olhares de quem passasse.

Com a vinda da Família Real para o Brasil, Dom João ordenou a retirada dos muxarabiês, pois eram de origem moura e relembrava o domínio da Península Ibérica do domínio árabe. Isso contribuiu para a comercialização dos vidros pelos ingleses e as varandas passaram a ser além de posto de vigília, posto de exposição, quando a mulher passava a poder ser vista, mudando a vida em sociedade. Ainda que fosse para ver as procissões, festejos públicos e cortejos.

Residências da Família Rocha à esquerda, Sobrado de Alexandre Padilha e Casa do médico Dr Francisco Lisboa (Dr. Chiquito). Foto do Acervo da Academia de Letras do Noroeste / Data provável da foto: Século XX

Residências da Família Rocha à esquerda, Sobrado de Alexandre Padilha e Casa do médico Dr Francisco Lisboa (Dr. Chiquito). Foto do Acervo da Academia de Letras do Noroeste / Data provável da foto: Século XX

As janelas além de terem a função de levar o frescor para o interior das edificações também cumprem outras funções: é o espaço de transição entre a casa e a rua, de convívio e lazer da família e desta com quem passa na rua e de contemplação da paisagem.

Terezinha_de_Jesus__Santana_Guimarães(*) Terezinha de J. Santana Guimarães é Professora de História, Historiadora da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Paracatu, e membro do Grupo Técnico do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico de Paracatu (COMPHAP).

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2 Respostas

  1. Terezinha Santana Guimarães | Responder

    Graciele e Carlos, obrigada pela oportunidade e pelo carinho!

  2. Terezinha parabéns! Texto maravilhoso! Viajei nele.

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