Uma lágrima no Arquivo

Por: Carlos Lima (*) / Em virtude do 20 de Outubro – Dia do Arquivista

Sr. Carlos Xavier e sua esposa Sr. Maria Xavier em pesquisa no Arquivo Público de Paracatu-MG. Foto do Acervo Institucional

Sr. Carlos Xavier e sua esposa Sr. Maria Xavier em pesquisa no Arquivo Público de Paracatu-MG. Foto do Acervo Institucional / Jun. 2014

Oito anos se passaram desde que João concluíra a sua Faculdade de Arquivologia lá no Nordeste e viera tentar uma nova vida no Sudeste do Brasil, com a perspectiva de novos horizontes profissionais. Tempo em que esse humilde e, modéstia parte, interessado Arquivista pudera reunir pelo menos algumas dezenas de boas histórias que lhe pudessem traduzir a felicidade enquanto pessoa, enquanto profissional.

Muitas são as atribuições de João para com a Arquivologia que aprendera não só no banco da Universidade, durante 6 laboriosos anos, mas na vida enquanto estagiário e funcionário que fora de empresas por que passou, antes de encarar carreira pública em uma instituição arquivística. Organizar os documentos e torná-los assim sempre acessíveis, envolver seus colegas em torno da preservação da memória documental e do planejamento do serviço arquivístico, de forma a ter como principal beneficiária de todo esse trabalho a população e demais usuários da informação, sempre foram sua grande missão.

Acostumado às adversidades e obstáculos aos quais está sujeito quem se envereda a trabalhar, dentre outros, nos considerados “porões” da memória – se é que se pode afirmar que de fato esteja realmente acostumado! – João estivera por vezes decepcionado e amargurado com as piadinhas que tivera de ouvir ao longo de sua atuação, como por exemplo: “Af! Esse negócio de não poder comer na sala do Arquivo é mais uma manota do Arquivista!”, ou então, “essa de usar luvas e máscaras para manusear os documentos não vai colar!” ou ainda, “para que esse cargo de arquivista no Arquivo!?”, sem contar na própria irrelevância com que normalmente são tratados arquivos e arquivistas pelos próprios agentes públicos, que os relegam quase que sempre ao último plano de suas decisões.

Escritor paracatuense Antônio de Oliveira Mello atendido pelo Arquivista Carlos Lima na Instituição em Paracatu. Foto: Arquivo Público de Paracatu / Dez. 2012

Escritor paracatuense Antônio de Oliveira Mello atendido pelo Arquivista Carlos Lima na Instituição em Paracatu. Foto: Arquivo Público de Paracatu / Dez. 2012

Entretanto, João, o Arquivista, não colecionou apenas dissabores durante a sua trajetória enquanto servidor público dedicado à prática e à teoria arquivísticas, antes encontrara em Deus, na família e no reconhecimento por parte do cidadão usuário de seus serviços, o ânimo indispensável para levá-lo à frente em sua plena convicção de que o Arquivo como repositório da informação bem organizada, indexada e, portanto, disponível em tempo hábil, representa a boa transparência dos atos e dos fatos, a combinação entre eficiência e eficácia de um serviço, a decisão correta no tempo certo, a substituição da ignorância pelo conhecimento, e especialmente, a relação entre passado, presente e futuro de um povo.

O Arquivista Carlos Lima e as auxiliares Maria Eni (à direita) e Alcione (à esquerda) . Foto: Acervo do Arquivo Público de Paracatu / Jan. 2013

O Arquivista Carlos Lima e as auxiliares Maria Eni (à direita) e Alcione (à esquerda) promovendo a higienização e o restauro de documentos históricos. Foto: Acervo do Arquivo Público de Paracatu / Jan. 2013

A dedicação e o interesse de João, aliados à existência e a preservação dos documentos, influenciaram vidas, que certamente ele jamais se esquecerá: Veja-se o exemplo do Sr. Adriam, um advogado e procurador de 54 anos, que encontrara, após 6 horas de árdua pesquisa nos arquivos sob os auspícios de João, os registros de quando trabalhara durante 3 anos para uma Prefeitura do interior de Minas Gerais e com os quais poderá agilizar o seu futuro processo de aposentadoria. A cada documento localizado e disponibilizado ao Sr. Adriam, João percebia a enorme felicidade que saltava dos olhos daquele homem.

Tempos depois, outro caso semelhante e sem dúvida emocionante para aquele humilde guardião da memória, quando recebera no Arquivo o Sr. Charles, de 56 anos de idade, também servidor público prestes a aposentar-se e que viera buscar no acervo as publicações oficiais de quando fora servidor de carreira do Governo de Minas Gerais. Pois bem, aquele usuário do Arquivo, que viera de longe (cerca de 240 Km), empreendera junto com sua esposa e sua filha 3 longos, mas compensáveis dias de consulta às fontes de pesquisa até localizar aos prantos os jornais que lhe poupariam um considerável tempo de serviço antes de aposentar-se.

São gestos de satisfação e palavras de agradecimento de cidadãos, como os do Sr. Adriam e do Sr. Charles, que frequentam o Arquivo e nele buscam algo que lhe seja útil, tanto para fins probatórios, quanto para um trabalho escolar ou acadêmico, ao ainda para um projeto arquitetônico ou uma decoração, uma foto a ser publicada ou um texto a ser produzido, ou simplesmente por pura curiosidade de um visitante, que tornam João, considerado por si próprio apenas um cooperador da cidadania e um zelador da memória, um sinônimo de profissional feliz com o que faz, um arquivista fiel aos princípios da arquivologia e atento aos anseios da comunidade. E como o dia 20 de outubro está aí, é bom que se proclame FELIZ DIA DO ARQUIVISTA!

(*) Carlos Lima é graduado em Arquivologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), é Pós-Graduado em Oracle, Java e Gerência de Projetos, é consultor em organização de arquivos e memória empresarial e exerce a função de Arquivista do Arquivo Público Municipal de Paracatu.

Atenção! Caso queira publicar esta matéria, cite o autor. Casa utilize as imagens, cite o fotógrafo e o acervo a que pertencem.

Foram adotados pseudônimos no texto.

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